Descobri que fui enganada.
Até meus quinze anos sempre me disseram, desde que eu passei a compreender a linguagem, que minha família era tudo que eu teria de certo até o final de minha vida e que só ela iria se preocupar e cuidar de mim nas minhas piores fases. Só esqueceram de me comunicar que era tudo mentira, que era tudo uma farsa e que me fizeram isso para me prender a uma vida cheia de dissabores malditos.
Vamos analisar comigo, meus pouquíssimos e preciosos leitores.
Quando comecei a ter minhas dores de crescimento mais fortes e torturantes quem foi que cuidou de mim ou se preocupou? Pelo o que eu me lembro – e vale informar que para sofrimento, infelizmente, eu tenho uma memória muito boa – meu amigo Betinho teve que se desdobrar para conseguir me ajudar. Só ele e mais ninguém, diga-se de passagem. E algumas pessoas da minha família ainda têm a ousadia de dizer que ele não presta.
Passou o tempo.
Quando tive minha primeira depressão e meu primeiro ato de coragem sobre humana (para bom entendedor, meia palavra basta), quem me protegeu e se importou? Única e simplesmente uma senhora de mãos dadas com uma criança que eu nem mesmo sei o nome - mas que cuja fisionomia lembrarei para o resto de minha vida - foi a única pessoa que me enxergou e me estendeu os braços.
Passou o tempo.
Daí veio a depressão outra vez (para quem é mal informado, a segunda, a terceira, a quarta ou a quinta sempre vêm mais forte que a anterior) e quem foi que me cuidou? Pouquíssimos amigos. Dando um crédito especialíssimo para Janaína e Vinícius que me acolheram dentro de suas casas. Ah! Sem contar que eu estava REALMENTE sem casa. Por quê? Porque a pressão era demais para uma mãe e ela não foi capaz de fazer nada a não ser CORRER COVARDEMENTE do problema. E meu pai poderia até mudar o nome em cartório para “Sr. Descaso” sem qualquer argumento.
Passou o tempo.
No início de agosto desse ano sofri um TCE (Traumatismo Craniano Encefálico) e tive perda total do olfato e parcial do paladar. Agora, me digam vocês, quem se preocupou? Agora, me digam vocês, quem é que me pergunta se eu estou bem ou se eu melhorei?
Depois do acidente, já cruzei várias vezes com membros de minha família e sobre o que é a conversa deles? Sobre eles mesmos, é claro. É OBVIO!
Para a coisa não ficar injusta, na verdade, a única pessoa com o meu sobrenome que se importou foi minha tia. Uma mulher que toda a família condena e joga na fogueira.
Se ela mereceu ir para a fogueira realmente não sei, eu era muito criança na época dos “pecados” dela. Mas uma coisa é certa: ela já aprendeu. E ponto final.
Na guerra da vida, o mais covarde é aquele que ignora o sangue e as lágrimas do seu próprio exército para negociar a paz.
Quem é que vai sofrer as consequências, afinal?